domingo, 28 de novembro de 2010

Artigo: A falta de "fé" na ciência

Há um embate milenar entre ciência e religião. E não quero, nem de longe, eleger uma das duas vertentes como vencedora. O mundo está tão louco que há cientistas ateus, ateus, cientistas e cientistas religiosos. A questão não é quem está certo, mas quem está pecando pelo erro da cegueira.

Há fatos curiosos acontecendo por aí. Quando alguém se acidenta gravemente, vai ao hospital e se recupera em uma velocidade muito surpreendente, sempre ouvimos que os "médicos não sabem explicar o motivo". E sempre que algo do tipo "não sei explicar" acontece, surge alguém que diz: "a explicação é Deus". Então, partindo desse pressuposto puramente divino, o que não é explicável ou nos assusta ou nos é incompreensível é Deus. Então, há milhares de anos atrás os relâmpagos e trovões que nos assustavam eram Deus, até que a ciência os explicasse e passassem a ser apenas raios e trovões.
Não estou provando a ausência de Deus, como Pascal e Tomás de Aquino quiseram provar metodologicamente Sua existência. Mas quero provar o desapego pela ciência, por cientistas, inclusive. Algo como uma preguiça científica: a explicação é inexplicável e ponto final. Mas quando há algo que não pode ser explicado ainda, não devemos ter dúvidas?

No caso citado anteriormente acerca da recuperação inexplicável pós-trauma, por que a primeira hipótese de um cientista seria por motivos divinos? A resposta é simples: porque ele pôs sua fé, construída pessoalmente, seja no berço do lar ou por "descobertas" próprias, antes da dúvida científica. Porém, em um processo de recuperação, há uma situação científica: há uma recuperação física, há os remédios, há o apoio familiar, há a própria fé do acidentado (que pode auxiliar na cura, como apontam estudos científicos) e mais um punhado de variáveis extremamente complexas. Porém, peca-se pelo erro da cegueira. Pode então um cientista propor respostas divinas em situações científicas? O céu é azul por que sim? Até que ponto isso atrasa a ciência? Ou até que ponto pesquisas controversas (em âmbito religioso) como as células-tronco são barradas pela força da religião/fé nos Estados? A fé parece exercer a mesma força que o capital, no avanço tecnológico: o poder de veto. Em um artigo anterior chamado "A tecnologia e o capital", expus a problemática do capital barrando o progesso científico. E quando falo progresso científico, refiro-me à ciência "do bem" e não a essa "desevolução" científica que nos cria armas cada vez mais potentes, por exemplo. Também não defendo a fé na ciência, algo que vai contra ao próprio pensamento científico que diz que algo está certo agora, mas pode estar errado ou incompleto mais à frente. Tal preceito é claramente contrário ao da fé: algo sempre esteve e sempre estará certo.

Fica aqui a eterna dúvida: se modelos científicos podem ser barrados por forças externas (como fé e capital), o quanto a ciência se atrasa? Perceba a sutileza da indagação: não digo que as fés são inúteis, mas que deveriam estar englobadas apenas no âmbito da fé e não como barreira a outras áreas, como avanço científico, agrupamento de grupos culturalmente diversos etc. A fé pura cria pré-conceitos: a da verdade pessoal própria, em detrimento das verdades de outrem. Esse choque de verdades tem gerado muita coisa no mundo: ganância, guerras, disputas, miséria. Mas "é tudo política", dirão. Concordo: também é política. Como também é capital. Afinal, quem imaginaria que haveria maquinetas de cartão de crédito dentro de uma igreja, não fosse a tecnologia fornecida pela ciência?

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