sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Artigo: A tecnologia e o capital

Há rumores de tecnologia em nosso meio. Porque o que vemos não é tecnologia, mas capitologia ou tecnopital. Há muito tempo - ou desde sempre? - não tem havido tecnologia. Tem havido patrocínio tecnológico. Se alguma instituição militar precisa de cristal líquido em sua corrida armamentista de guerra-fria e é possível capitalizar tal ideia, "fordializá-la", surgem as telas LCDs para nós, consumidores.

A ciência, como boa parte da humanidade, está a serviço do capital. E há uma sutil falácia em dizer que o que temos hoje é fruto de investimento em tecnologia. Saindo da casca, dá para dizer que o pouco que temos frente ao muito que poderíamos ter se dá pelas barreiras do capital. Capital esse que faz países formarem cientistas que focam o seu conhecimento em produtos militares, em armas de genocídio, em lucros enlatados, em destruição de ecossistemas. Que cientistas são esses? Não são cientistas: são produtos altamente qualificados do própio capital. São traficantes de lucro. Como é concebível doutores, pesquisadores, fornecerem conhecimento para a indústria do tabaco, militares etc? Precisam de emprego, dirão. Com tal nível de conhecimento precisaria ser em tais lugares? Então não importa a ciência, e sim o capital? Poderiam, então, lidar com tráfico de drogas, pois a ideia falaciosa é a mesma.

Vejo a miríade de engenheiros e cientistas aptos a boas pesquisas distorcerem seus próprios caminhos. E vejo também duas causas básicas:

1) a premissa, no ninho familiar, de que o capital vem em primeiro lugar.
2) a falha educação que forma bacharéis com pensamento técnico: não conseguem trazer a dúvida científica para nada que não seja sua área de pesquisa.

O primeiro ponto é óbvio: a cultura de casa e do meio podem transformar as pessoas a tal de ponto de ignorar quaisquer outras coisas e focar apenas no capital. Mas vejamos o segundo motivo, muito mais alarmante: há um sistema educacional mundial que não preza pela ciência, mas pela execução técnica de algo. As nossas escolas e universidades - como próprio produto do sitema que gira pelo capital - cria gente capacitada em pontos altamente específicos, mas que há muito não sabem o que é a busca científica. Nesse aspecto, não sei como é possível haver doutores em quaisquer áreas que não saibam medir o impacto de suas pesquisas militares ou que consigam ingerir produtos altamente cancerígenos. Esses novos tempos tem trazido esse novo tipo de alienação: um alienado intelectual. E esse, penso, é o da pior espécie, pois é ele quem consegue fazer as coisas, construí-las, destruí-las e todo o mais. Como é concebível ver um doutor fumar ou esbaldar-se em álcool ou comer a comida feita de sacarina sódica, conservantes e edulcorantes altamente perigosos? Como essas pessoas não trazem o rigor científico para suas realidades? Os sábios não deveriam servir-nos de modelo?

O problema, vejo eu, é culpa de Platão, que quis nos dar um governo de sábios no poder, que quis a luta através da luz, do conhecimento, que quis criar um modelo platônico de mundo, com o perdão do trocadilho. Ah, Platão, por que incutiu-nos tais ideias, se há muito o homem continua - e sempre foi - o mesmo homem: aquele que se farta, quando deveria dividir?



Crédito da imagem: Obvious.

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